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Arte em contexto terapêutico

Raquel Pedro

2008

 

 

 

 

 

 

Duas coisas ameaçam o mundo: a ordem e a desordem

Paul Valéry

 

 

 

 

 

 

 

 

Resumo

O artigo aborda os caminhos da criatividade e a presença da arte no contexto terapêutico. É feita referência à ligação entre a criatividade e os aspectos cognitivos. Estão ainda documentadas reflexões quanto aos diversos contextos em que decorrem as intervenções pela arte. Por último, são apresentadas algumas características inerentes à criatividade.

 

Palavras – chave: arte, criatividade, intervenção, estímulo, auto-conhecimento

 

Abstract

This article approaches the creativity paths and the presence of art in a therapeutic environment. It relates the connection between creativity and cognitive functions. We also insert some documented reflections upon the different circumstances when using art. At last, we demonstrated some features concerning creativity.

 

Key–words: art, creativity, intervention, stimulus, self-knowledge

 

 

 

 

 

 

 

 

Introdução

 

A criatividade enquanto meio de expressão e performance cognitiva pode assumir hoje um papel importante no processo de auto-conhecimento e nas dinâmicas de reabilitação.

 

A procura incessante da fórmula e da técnica que melhor resulte não é mais do que o processo criativo[1] e o caminho da investigação. Desta forma, há uma proximidade entre a actividade do artista e do cientista. O momento de revelação aquando da produção da obra, como se de um achado se tratasse, é um desvendar de algo que está encoberto.

 

 A representação simbólica desse mundo interno exige uma outra forma de linguagem que não a discursiva, e essa forma é a obra de arte (HONIGSZTEJN, p. 24, 1990).

 

Esta capacidade transportada pelo acto criativo, e orientada num contexto terapêutico, pode permitir a revelação de uma comunicação que se reconhece difícil e que não passe exclusivamente pela expressão verbal. Assim, a arte pode e deve desempenhar um papel preponderante no processo de comunicação.

 

Os meios artísticos funcionam nesta realidade como indicadores e são seguramente facilitadores na expressão. A arte (mais concretamente o suporte utilizado) passa a ser o veículo da mensagem que se quer transmitir e, é sem dúvida, imprescindível na compreensão do mundo que nos rodeia. No seguimento desta ideia, torna-se assim mais fácil identificar ou descodificar alguns estados emocionais através deste meio[2].

 

Uma atitude criativa pode levar à construção de uma postura mais flexível e mais saudável. Ao transpormos estas estratégias para o contexto da doença mental podemos, através dos suportes e técnicas, documentar vivências, anseios, memórias, expectativas, entre outros.

 

 

Contextos

 

A própria linguagem criativa, os materiais utilizados (cores, texturas, possibilidades de expressão com cada material), agregados ao olhar terapêutico modalizador, tornam-se incentivadores das experimentações de expansão ou continências necessárias em cada momento do processo. (CIORNAI, p. 123-124, 2005).

 

O contexto onde se processa a actividade criativa importa para os objectivos que procuramos alcançar; no entanto, as estratégias adoptadas não devem variar grandemente entre contextos (escola, museu ou hospital). Qualquer palco de formação e/ou reabilitação necessita de funcionar entre a estrutura e a ausência desta, entre a liberdade de experimentar e a contenção do registo.

 

Acima de tudo, é importante criar um lugar que ofereça conforto e segurança, o espaço escolhido para o efeito pode ser determinante no resultado da intervenção. As técnicas utilizadas não devem representar um receituário, cada sessão[3] pode apelar a temas e técnicas diferentes ou simplesmente deixar essa escolha ao critério dos participantes. O contexto onde desenrola a oficina/ o atelier/ a sessão, importa tanto quanto o que nela estiver distribuído, as equipas envolvidas e os participantes.

 

Ainda neste ponto, gostaria de reforçar a importância das equipas multidisciplinares.[4] São uma importante alavanca para a motivação e permitem desenvolver projectos cada vez mais alargados, abraçando realidades muito distintas. Por seu turno, as equipas funcionam como um porto seguro, norteiam-se e apoiam-se nas dúvidas que vão surgindo e é indiscutível que são um pilar de sustentabilidade nos processos terapêuticos. Desde sempre se experimentou parcerias no sentido de se encontrar outras respostas terapêuticas[5].

 

 

Estimulação na reabilitação e reabilitação na estimulação

 

O estímulo é a palavra-chave, sendo fundamental para o desenvolvimento de aptidões criativas. A intervenção através da arte pode permitir a antecipação de capacidades ou a descoberta de talentos[6]. No caso de uma intervenção em contexto terapêutico o papel da arte, enquanto estímulo, procura uma resposta/reacção e por conseguinte uma postura mais participativa, levando muitas vezes à desejada interacção.

 

Num contexto de internamento, quando um sujeito é convidado a expressar-se através da arte, seja qual for o suporte escolhido e o tipo de registo, esta tomada de decisão pressupõe desde logo uma escolha, seguida de um plano e finalmente uma execução. Assim, estes pequenos grandes gestos conferem a estruturação que está na base da maioria dos projectos realizados neste âmbito.

 

O trabalho criativo obriga a uma certa disciplina e implica método. Projectar, planificar e conceber requer um esforço e uma estrutura por parte do indivíduo. Esta perseguição inerente ao processo criativo provoca no sujeito uma necessidade de investigar, procurando resolver o enigma que tem entre mãos. Neste processo, o indivíduo faz um caminho de introspecção, “evocando” o próprio inconsciente. A intuição é chamada a operar; uma intuição criadora resultante de um processo permanente de reflexão.

 

Criar pressupõe pensar, havendo aqui também um compromisso cognitivo; e este comportamento pode levar a que algumas estruturas que se alterem. Novos conceitos são adquiridos e outros reformulados. Esta noção de modificabilidade[7] é crucial, entre outros, para os contextos da formação e reabilitação.

 

Um projecto que seja criativo, e que pressuponha etapas para a sua concretização, obriga a um envolvimento considerável por parte de quem o executa. Esta implicação é já um passo para uma certa organização, podendo ser também motivo de equilíbrio interno. Esta orientação pode promover, entre outros, a percepção, a memória e o raciocínio. Para além de que a este vem associada a motivação, forte aliada da recuperação/reabilitação.

 

Devemos ter em consideração a relação entre a criatividade e os processos cognitivos, estando a criatividade intimamente ligada à capacidade de processamento da informação e daí que esta seja uma importante chave para o reconhecimento do meio envolvente.

 

Os registos efectuados nestes contextos, estabelecem uma espécie de diálogo entre a própria pessoa e o outro, uma espécie de auto-representação[8]. Muito para lá de um auto-retrato, é a forma como me vejo ou como me sinto no preciso momento em que realizo o registo. Este gesto, que assinala uma determinada situação, situa-nos no tempo e no espaço, revela estados de alma, é muitas vezes a transferência do eu para o papel/tela ou outro suporte.

 

 

A criatividade e a descoberta

 

A dimensão de um problema para um artista ou cientista é o garante da sua investigação. No contexto terapêutico, a estimulação da criatividade pode representar um forte aliado para a resolução de alguns problemas.

 

Seguindo esta ideia, é conseguir através da criatividade encontrar respostas e executar tarefas de forma mais improvisada. O retirar as coisas dos seus lugares é, desde logo, uma atitude arrojada, imagine-se agora apropriarmo-nos delas ou construir novas formas[9]. A criatividade prepara assim os indivíduos para lidar com o inesperado, com tudo aquilo que a vida nos traz e para o qual nós não estamos preparados, nem sabemos como lidar.

 

O pensamento criativo não se limita apenas ao domínio da arte pois desempenha um papel importante nas ciências e tecnologias. A permanente reestruturação do pensamento é fundamental para determinar as escolhas de forma criativa e autónoma.

 

Assim, portanto, o olhar torna-se inteligente – e, por isso, criador – quando se converte numa busca dirigida por um projecto (MARINA, p. 35, 1995)

 

A pintura, o desenho, o vídeo, a escultura, a fotografia, entre outros, são registos que exploram mecanismos de compreensão da realidade que nos rodeia, auxiliando na interpretação das próprias vivências. Estes suportes são igualmente preponderantes na criação de interfaces entre o eu e o real, podendo ajudar a recriar ou imaginar uma realidade menos adversa e consequentemente mais aprazível. Parafraseando Carlos Amaral Dias (1980), ter saúde mental é sobretudo ser capaz de pensar, ser capaz de sonhar.[10] Desta forma, o processo criativo pode levar o indivíduo, através do acto de criação, a uma manifestação de saúde mental.

 

Gostaria de terminar reforçando a ideia de que é possível através da exploração da criatividade reforçar as capacidades de cada um, aumentando assim a motivação e, quiçá, alterar atitudes com vista ao desenvolvimento de um comportamento mais criativo, autónomo e sobretudo eficaz.

 

Considerações finais

 

O auto-conhecimento auxilia na antecipação das escolhas individuais, para além de promover uma maior consciência dos fenómenos envolventes. Os sujeitos mais criativos apresentam uma adaptabilidade e uma abertura à experiência, factores importantes para ultrapassar momentos de maior fragilidade ou até de doença.

 

O treino[11] e o exercício criativo permitem melhorar a performance cognitiva, imprimindo flexibilidade ao indivíduo e contribuindo para a sua autonomia. Apresentar maior flexibilidade é ser capaz se adaptar aos diversos contextos e estímulos (capacidade de responder de forma criativa a situações novas).

 

A intervenção pela arte não é por si só terapêutica, depende muito da dinâmica em que se processa a intervenção, equipas, espaços, participantes e outras condicionantes. Há dúvidas e incertezas, mas que representam os desafios próprios de projectos com uma forte componente experimental. Importa valorizar estas pesquisas e procurar, de forma interdisciplinar, expandir as possibilidades[12]. Encarar estas intervenções como “palcos” de experimentação procurando valorizar o processo, as escolhas e as motivações.

 

As técnicas que desenvolvem as competências criativas são úteis no processo de construção do indivíduo (ou na sua reabilitação, dependendo do contexto de actuação). Um dos desafios de utilizar a arte em contexto terapêutico é, entre outros, equilibrar a fronteira entre o sentido alargado da arte[13] e a estruturação; explorando novas formas de comunicação e de conhecimento.

 

 

Referências bibliográficas

 

CIORNAI, Selma. (2005). Percursos em Arteterapia: Arteterapia e Educação, Arteterapia e Saúde. São Paulo. Summus Editorial

COTOVIO, Vítor Viegas. (2007). Procura de Si e Liderança – Conheço (-me) e Lidero (-me). Lisboa. Caminho.

CURY, Augusto. (2007). Inteligência Multifocal. Cascais. Editora Pergaminho.

DIAS, Carlos Amaral; MONTEIRO, João Sousa. (1980). Eu já posso imaginar que faço. Assírio & Alvim.

EDWARDS, Betty. (1979) Desenhando com o lado direito do cérebro. Rio de Janeiro, Ediouro

FONSECA, Vítor da; SANTOS, Francisco (1995). Programa de Enriquecimento instrumental de Feuerstein. Lisboa. Edições FMH – Educação Especial e Reabilitação.

FONTANEL-BRASSART Simone e ROUQUET André (1977). “A Educação Artística na Acção Educativa”. Coimbra. Livraria Almedina.

HONIGSZTEJN, Henrique. (1990). A Psicologia da Criação. Rio de Janeiro. Imago Editora

MARINA, José A., (1995). Teoria da Inteligência Criadora. Lisboa. Caminho.

SCHAVERIEN, Joy; ODELL-MILLER, Helen, Arteterapias In GABBARD, Glen O.; BECK, Judith S.; HOLMES, Jeremy (Eds.), Compêndio de Psicoterapia de Oxford. Porto Alegre: Artmed (2007, pp.125-135)

VIGOTSKI, L.S. (1998). “O Desenvolvimento Psicológico na Infância”. São Paulo. Editora Martins Fontes.

 

Revista Psicologia: Teoria, Investigação e Prática (2001). Secção Temática: Criatividade. Centro de Estudos em Educação e Psicologia da Universidade do Minho. Braga. Edição Semestral.

 

 

 

 


[1] Processo de trabalho que se desenvolve por etapas que se vão definindo à medida que a reflexão acontece, levando o autor a seguir os caminhos sugeridos por essas démarches. Expressão comummente utilizada como work in progress e atribuída muitas vezes ao processo criativo.

[2] O meio da expressão e da reflexão.

[3] Refiro-me às sessões do Estúdio de Arte, espaço de intervenção pela arte. Direccionado para actividades criativas ou terapêuticas está integrado no Projecto Expressar.te (Arte e Terapia) da Casa de Saúde do Telhal

[4] Equipas multidisciplinares, associadas aos programas de reabilitação psicossocial na área da Saúde Mental, integram vários profissionais de saúde e outros. Neste ponto, aconselho ainda a leitura do livro Procura de Si e Liderança, Conheço(-me) e Lidero(-me) de Vítor Viegas Cotovio, e no que respeita a este assunto, saliento o capítulo Da Equipa.

[5] Os primeiros arte terapeutas ingleses eram artistas que trabalhavam em colaboração com os restantes profissionais médicos (SCHAVERIEN, Joy; ODELL-MILLER, Helen, Arteterapias In GABBARD, Glen O.; BECK, Judith S.; HOLMES, Jeremy (Eds.), Compêndio de Psicoterapia de Oxford. Porto Alegre: Artmed (2007, pp.125-135)          

[6] Entre outros, gostaria de referir um exemplo que emergiu das instituições psiquiátricas e que está documentado na colecção de Arte Bruta de Jean Dubuffet.

[7] Modificabilidade cognitiva. O programa de enriquecimento instrumental de Feuerstein é um dos métodos para ensinar a pensar, ajudando a monitorizar os comportamentos. Para Feuerstein todo o ser humano é modificável (Fonseca, Santos, p.15, 1995)

[8] A auto-representação vai além do auto-retrato. Parte da ideia de como a pessoa se sente naquele preciso momento ou de como pretende ser observada. Na auto-representação podem ser introduzidos elementos que funcionem como uma espécie de narrativa que se conta através do desenho, pintura, colagem, etc.

[9] Vygotsky refere-se à imaginação da seguinte forma a imaginação não repete em formas e combinações iguais impressões isoladas, acumuladas anteriormente, mas constrói novas séries, a partir das impressões anteriormente acumuladas. Em outras palavras, o novo que interfere no próprio desenvolvimento de nossas impressões e as mudanças destas para que resulte uma nova imagem, inexistente anteriormente, constitui como se sabe, o fundamento básico da actividade que denominamos imaginação (Vygotsky, p.107, 1998)

[10] Ver o capítulo Porque é que é mais saudável a loucura do que a ausência dela? Integrado na obra Eu já posso imaginar que faço de Carlos Amaral Dias

[11] “Os meus projectos podem orientar o meu olhar e torná-lo mais hábil e preciso; também posso construir a minha memória, a minha linguagem, os meus sentimentos (…) o eu criador ou executivo – o que planeia, escolhe, dirige, avalia, selecciona…” (MARINA, p. 97, 1995). Assim, a atitude criativa pode ser treinada (à semelhança do treino físico).

[12] Neste ponto, sugiro um dos capítulos da obra de Augusto Cury (Inteligência Multifocal, 2007) – os procedimentos multifocais usados como vacina intelectual.

[13] Este alargamento a que me refiro trata-se do conceito denominado “art at large” ou “art in general”.