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PINTURA E NOVAS TECNOLOGIAS ARTÍSTICAS

Ilídio Salteiro

2008

 

 

 

 

 

 

1. Pintura e Tecnologia

A Tecnologia através do conhecimento, da técnica, do método, do processo, da matéria, do utensílio e da máquina, corresponde a um saber-fazer em constante aperfeiçoamento, na tentativa de, em cada momento, dar soluções a todos os problemas da Humanidade. A Pintura sendo um dos campos de actuação do pensamento, serve-se e apropria-se naturalmente da tecnologia para adquirir forma e tornar activo e actuante esse pensamento. Assim a Pintura corresponderá a um pensamento com forma e esta forma dependerá da Tecnologia permanentemente nova.

2. Parcerias

As metodologias da produção pictórica actual obrigam inevitavelmente ao contacto frequente com os conteúdos específicos de todas as tecnologias. O saber do pintor sobre a plasticidade e a capacidade expressiva das matérias e da relação destas com o objectivo que o motivou, pode não ser suficiente para abarcar a especificidade de todas as áreas tecnológicas que um projecto comporta. Quando se projecta e se concretiza um pensamento numa forma visível, é quase sempre naturalmente necessário a constituição de parcerias ou equipas.

3. Evolução tecnológica

No campo específico da Pintura, a evolução tecnológica das tintas, a procura constante de outros médiuns, de outros pigmentos e de outros utensílios capazes de melhorarem as performances da mão e do gesto, são apenas alguns exemplos da investigação permanente no universo das tecnologias. O óleo como médium garantiu a colagem dos pigmentos aos suportes e possibilitou uma nova plasticidade das tintas. Os pigmentos com maior ou menor resistência à luz, desde os originais brancos de cal, negro de fumo e terras até à vastíssima paleta da actualidade permitem-nos, através dos efeitos sensoriais da cor, fazer e perceber outros mundos. Um composto de cobalto e estanho, que quimicamente se traduz na sensação cromática a qual atribuímos a designação de azul, possibilita-nos a sensação da água ou do ar, dependendo das intenções do autor e do contexto em que este o integrar.

4. Transmissão de conhecimentos

Os modos de ver ou perceber, de fazer e de transmitir informação e conhecimentos naturalmente que se modificam de acordo com a estrutura social de cada época, de cada cultura e de cada local. Na cultura ocidental a tratadística, desde Vitrúvio ou Plínio até ao século XIX, cumpriu um papel fundamental como transmissora de conhecimentos.

No entanto progressivamente ela deu lugar aos manuais escolares, devido a novos conceitos e novos sistemas de ensino mais abrangentes e mais democráticos e também porque as novas tecnologias de impressão, tais como o off-set, possibilitaram que se fizessem tiragens em número ilimitado do mesmo livro, periódico ou panfleto.

5. Investigação continua

Nestes meios de transmissão de conhecimento estão explícitos os conhecimentos básicos, aquele que já estão assumidos como universais, como institucionalizados, assumidos como verdade. São essenciais para uma estruturação de qualquer pensamento, porque será sobre eles que se alicerçarão as formas capazes de resolverem criativamente o nosso quotidiano. Mas esta situação em vez de eventualmente nos remeter para um universo estático remete-nos para universos onde a investigação é a dinâmica estrutural nova. A alquimia que deu lugar à química, o sistema métrico decimal do peso e das medidas, com origens no século XVIII, ainda se encontra em fase de implementação universal, o byte como uma unidade de medida de memórias artificiais é uma realidade em permanente exploração e o CERN (Centre Européen pour la Recherche Nucléaire) que procura do nada fazer matéria, são exemplos de investigações continuadas onde o conhecimento antigo se soma ao novo com o objectivo de solucionar a contemporaneidade.

6. Meios sempre novos

Com estes conhecimentos diversos instrumentos se inventam, possibilitando que outros conceitos nasçam e por conseguinte novas tecnologias, artísticas ou não, se formulem.

As matérias que nos ajudam a resolver os problemas da existência no espaço-tempo que habitamos, são ao mesmo tempo as matérias que produzem a coisa artística e o corpo da arte entendida na sua dupla vertente de pensamento e domínio das tecnologias.

Do mesmo modo que muitas outras entidades também têm como razão de existência a investigação e a procura de propostas construtivas da continuidade do presente, também a Pintura se serve dos meios tecnológicos ao seu dispor, por isto mesmo sempre novos, para com eles acrescentar e propor alternativas.

7. Modos de ver e modos de fazer

Os modos de ver mudam ao mesmo ritmo que mudam os modos de fazer numa espécie de movimento perpétuo pleno de dinamismo. Por isto, no âmago da construção da Pintura, estes modos não podem ser encarados como valores estáticos uma vez que o dinamismo que fervilha em seu redor é constante. É na relação entre estes modos que reside o âmbito da Pintura, acrescido dos seus elementos estruturantes essenciais situados na importância primordial das formalidades visuais – ponto, linha, textura, cor e luz – na constante presença de realidades virtuais – narrativas e sensitivas – e na resolução estrutural segundo um sistema de superfícies – regulares, irregulares, planas, bidimensionais ou tridimensionais.

8. Novas tecnologias artísticas

No seguimento do exposto, enquanto as tecnologias que não são novas no campo da Pintura são meios estáticos e já institucionalizados, aquelas a que chamamos Novas Tecnologias Artísticas resultam da importação de conhecimentos vindos de todas as áreas e que por vezes se somam aos conhecimentos anteriores com o fim de resolverem os problemas específicos da produção criativa pictórica que no presente se precisa.

 

 
 

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